
A atriz Laura Cardoso, um dos nomes mais importantes da história da dramaturgia brasileira, morreu na noite desta segunda-feira (17), aos 98 anos, em sua casa, em São Paulo. A informação foi confirmada pela família durante a madrugada desta terça-feira, 18, por meio das redes sociais oficiais da artista. Segundo familiares, Laura morreu de causas naturais. O velório será nesta terça-feira, em cerimônia reservada na capital paulista.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, a artista começou a carreira ainda adolescente no rádio, em uma época em que a televisão brasileira sequer existia. Filha de imigrantes portugueses, cresceu no bairro do Bixiga e entrou para a Rádio Cosmos aos 16 anos. Nos anos seguintes, virou presença constante nas radionovelas e acompanhou de dentro a chegada da televisão ao país. Em 1952, estreou na TV Tupi, ajudando a construir uma linguagem que ainda estava aprendendo a existir diante das câmeras.
Ao longo de mais de oito décadas de profissão, Laura Cardoso se transformou em um rosto praticamente inseparável da novela brasileira. Passou por diferentes emissoras e participou de mais de 60 novelas, acumulando personagens marcantes em produções como Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, O Rei do Gado, Esperança, Caminho das Índias, Gabriela, Império e Sol Nascente. Em A Viagem, viveu a inesquecível Guiomar, enquanto em Mulheres de Areia deu vida a Isaura (mãe das gêmeas Ruth e Raquel), duas personagens que ajudaram a aproximá-la ainda mais do grande público.
Sua trajetória, porém, nunca ficou restrita à televisão. No cinema, participou de mais de 30 filmes, entre eles Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas, e Através da Janela, trabalho pelo qual recebeu reconhecimento da crítica. Também construiu uma carreira sólida no teatro, trabalhando com nomes como Antunes Filho e Gabriel Villela, e conquistou dois Prêmios Shell de Melhor Atriz. Para completar um currículo que parece caber em várias vidas, Laura também foi a voz brasileira de Betty Rubble, de Os Flintstones, entre 1963 e 1966.
Na vida pessoal, Laura foi casada com o ator Fernando Balleroni, com quem teve duas filhas. O casal permaneceu junto até a morte dele, em 1980. Ao longo dos últimos anos, a atriz continuou próxima do público e nunca anunciou formalmente uma aposentadoria. Seu último trabalho artístico foi o curta-metragem Dona Rosinha, realizado em 2025, e ela ainda participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo naquele mesmo ano. Na gravação, fez questão de se levantar da cadeira para cantar de pé ao lado dos colegas, em uma imagem que agora ganha um significado especialmente bonito.
Nota do autor
A morte de Laura Cardoso encerra uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão brasileira. Ela começou quando atuar para uma câmera ainda era novidade, atravessou a era ao vivo, o videotape, as novelas em preto e branco, a consolidação da TV em cores e chegou ao streaming sem nunca perder a naturalidade diante de uma cena. Mais do que uma veterana, Laura foi testemunha e protagonista da transformação do entretenimento no Brasil. Algumas carreiras atravessam gerações. A dela ajudou a criá-las.



