
Após examinar as bases históricas da formação racial do Brasil em seus primeiros capítulos, a série Coleção Antirracista continua no SescTV em maio com quatro episódios que deslocam o debate para dimensões concretas da vida social: o território, os corpos, as estruturas de poder e as possibilidades de transformação.
Com direção e curadoria de Val Gomes e curadoria do historiador Bruno Garcia, a produçãpo propõe um exercício de letramento crítico sobre o racismo estrutural no Brasil. Em episódios curtos e diretos, a série articula pensamento acadêmico, experiência e análise histórica para evidenciar como desigualdades raciais são produzidas e atualizadas ao longo do tempo.
No dia 5/5, o episódio “Urbanização como Apartheid” analisa como a formação das cidades brasileiras, especialmente a partir do final do século XIX, esteve diretamente associada à exclusão da população negra recém-liberta. Sem políticas de inclusão, a resposta se materializou nas cidades.
As populações negras foram empurradas para cortiços, depois removidas e, por fim, deslocadas para territórios precários. Essa dinâmica, longe de ser espontânea, foi estruturada por decisões políticas. Segundo a arquiteta e urbanista Joice Berth, “os espaços de favela foram pensados politicamente para alocar os indesejáveis que a sociedade branca elitizada não queria lidar.” O capítulo evidencia como essa lógica se perpetua no presente, moldando o acesso desigual à cidade, aos serviços públicos e às oportunidades.
Na semana seguinte, em 12/5, “Mulheres Negras” propõe uma revisão da história a partir de trajetórias frequentemente apagadas. Ao tensionar o silêncio imposto pelo racismo e pelo patriarcado, o episódio destaca figuras fundamentais na luta por direitos e existência.
A escritora Cidinha da Silva aponta para o papel central da memória nesse processo: “Eu penso que a memória, mais do que resistência, nos ajuda a produzir lugares de existência. Lugares para que saibamos como somos.”
Entre referências históricas e contemporâneas — como Lélia Gonzalez, Antonieta de Barros e Marielle Franco —, o episódio constrói um panorama que articula gênero, raça e classe, ampliando o entendimento sobre desigualdades e formas de resistência.
No dia 19/5, “Racismo Estrutural” se debruça sobre um conceito cada vez mais presente no debate público. A partir de contribuições de pensadores como Kabengele Munanga e Lia Schucman, o episódio demonstra que o racismo ultrapassa atitudes individuais e se organiza como sistema.
Nesse sentido, a médica e ativista Jurema Werneck destaca: “quando falamos de racismo estrutural, estamos falando de imaginários, culturas e instituições.” Ou seja, trata-se de um fenômeno que atravessa o Estado, a família e as formas de pensar e agir, influenciando diretamente o destino social de diferentes grupos.
Encerrando o mês, em 26/5, “Branquitude vs Antirracismo” propõe uma inflexão ao deslocar o foco para os privilégios historicamente atribuídos à população branca. A psicóloga Cida Bento evidencia essa assimetria ao observar que “você pode ter um branco e um negro numa determinada favela saindo para buscar emprego, e o branco saberá que está em situação de vantagem com relação àquele negro vizinho dele.”
Ao discutir a naturalização desses privilégios, o episódio aponta para a necessidade de reconhecimento e responsabilização. Como afirma Sueli Carneiro, “o lugar do antirracista é dizer o tempo todo que ele não é signatário desse pacto perverso que está em vigor.”
Mais do que denunciar desigualdades, o episódio final propõe o antirracismo como prática ativa, que envolve educação, políticas públicas e transformação institucional.
Sem recorrer a simplificações, a série Coleção Antirracista amplia o campo de reflexão iniciado em abril e reforça a urgência de compreender o racismo como um sistema que estrutura a sociedade brasileira e que, justamente por isso, exige mudanças profundas e contínuas.
SERVIÇO
COLEÇÃO ANTIRRACISTA
Série documental | Brasil | 2022
Direção e curadoria: Val Gomes
Curadoria: Bruno Garcia
Produção: Olhar Imaginário
8 episódios | 12 minutos cada
Exibição: terças-feiras, às 22h
Reexibições: quarta, 18h15; sexta, 10h; sábado, 13h45; segunda, 3h45
Episódios inéditos de maio:
5/5 — Urbanização como Apartheid (Ep. 5)
12/5 — Mulheres Negras (Ep. 6)
19/5 — Racismo Estrutural (Ep. 7)
26/5 — Branquitude vs Antirracismo (Ep. 8)
Participações: Sueli Carneiro, Cida Bento, Salloma Salomão, Lia Schucman, Jurema Werneck, Joice Berth, Kabengele Munanga, Cidinha da Silva
Para sintonizar o SescTV: consulte sua operadora ou acesse sesctv.org.br/noar.
Siga o SescTV nas redes: sesctv
Sob demanda: episódios disponíveis em sesctv.org.br/sonorabrasil e no app Sesc Digital, gratuito nas lojas Google Play e App Store.
SOBRE O SESCTV
O SescTV é um canal de difusão cultural do Sesc em São Paulo, distribuído gratuitamente, que tem como missão ampliar a ação do Sesc para todo o Brasil. Sua programação é constituída por espetáculos, documentários, filmes e entrevistas. As atrações apresentam shows gravados ao vivo com variadas expressões da música e da dança contemporânea. Documentários sobre artes visuais, teatro e sociedade abordam nomes, fatos e ideias da cultura brasileira em conexão com temas universais. Ciclos temáticos de filmes e programas de entrevistas sobre literatura, cinema e outras linguagens artísticas também estão presentes na programação.



