
Análises e Dicas #1127 – ‘Supergirl’ (2026)
– Sinopse: Kara Zor-El ainda carrega as marcas da destruição de Krypton quando se vê envolvida em uma jornada interplanetária ao lado de uma jovem em busca de justiça. Entre vingança, memória e identidade, ela precisa confrontar o próprio passado para entender que tipo de heroína deseja ser. Disponível na HBO Max.
– Análise: Uma ideia interessante; mas acima do que a execução consegue sustentar: olhar para Kara Zor-El não como uma extensão feminina do Superman, mas como alguém moldada pela perda. Enquanto Clark cresceu cercado por afeto, ela viu seu mundo acabar, e essa diferença é o que dá sentido à personagem. O problema é que o roteiro nem sempre confia na força desse conflito. Em vez de deixar a dor da protagonista ganhar corpo, o filme oscila entre diálogos expositivos e flashbacks que surgem de forma pouco orgânica, como se precisasse completar às pressas o molde emocional de Kara. Sua crise existencial juvenil aparece constantemente atravessada por bebedeiras, ressacas e explosões de autodestruição, recurso que, depois de certo ponto, deixa de revelar camadas e passa a repetir a mesma informação: ela está quebrada, deslocada e sem saber o que fazer com a própria dor. Essa insistência prejudica até a atuação de Milly Alcock, que salva boa parte do filme pela presença e pela tentativa de encontrar humanidade nas fraturas da personagem, mas acaba limitada por um ritmo truncado e por acontecimentos que nem sempre se encadeiam com fluidez. Ainda assim, há uma ideia potente no centro da obra: heroísmo não nasce da força, mas da escolha de não reproduzir a violência que nos formou. A vingança aparece como resposta compreensível, instintiva, mas limitada. A justiça, por outro lado, exige renúncia, responsabilidade e alguma disposição para não virar refém da própria ferida. O filme funciona melhor quando entende isso e permite que Kara deixe de ser apenas alguém reagindo ao trauma para se tornar alguém capaz de decidir o que fazer com ele. Essa fluidez, porém, só é alcançada mais perto do fim, quando a conclusão melhora a argumentação e finalmente entrega uma ação que fazia falta diante da necessidade constante de explicar a natureza dos sentimentos da protagonista. Nesse sentido, o cãozinho Krypto funciona como MacGuffin: é o elemento que movimenta a trama, empurra Kara adiante e organiza o percurso emocional que o roteiro demora a amarrar.
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