Vencedor do Oscar de ‘Filme Internacional’ em 2025, ‘Ainda estpou Aqui’ foi exibido no Festival do Rio do ano passado (Foto: Divulgação/ Globoplay/ Alile Dara Onawale)

O cinema brasileiro atravessa um período de maior reconhecimento dentro e fora do país, impulsionado pela presença crescente de obras nacionais em premiações, festivais e plataformas de streaming. No entanto, muito antes desse cenário, os brasileiros já demonstravam uma relação positiva com essas produções. Pesquisa realizada em 2023 pela Casa Mundo Market Intelligence, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo na América Latina, em parceria com a Globo Gente, combinou grupos de discussão realizados no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador com frequentadores e ex-frequentadores de salas de cinema, além de entrevistas com especialistas do setor, incluindo produtores, distribuidores, exibidores e profissionais ligados ao mercado audiovisual. Ela revela que os espectadores associam os filmes brasileiros à identificação, à representatividade e ao orgulho de ver a cultura do país retratada nas telas. A pesquisa completa está disponível aqui.

Entre os principais atributos associados ao cinema nacional está sua capacidade de retratar a realidade do país. Os participantes associam essas produções a histórias, personagens, sotaques e contextos que ajudam a compreender melhor a diversidade brasileira, gerando identificação e senso de pertencimento.

“O estudo mostra que existe uma conexão genuína entre o público e as histórias brasileiras. As pessoas se reconhecem nesses personagens, nesses cenários e nessas narrativas. O cinema nacional ocupa um lugar importante na construção da nossa identidade cultural, mas essa identificação nem sempre se converte em visibilidade para as produções”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence.

Apesar dessa percepção positiva, os entrevistados apontam que a visibilidade ainda é um dos principais desafios do cinema brasileiro. A falta de divulgação é apontada como uma das principais barreiras, somada à dificuldade de acompanhar estreias e à sensação de que os filmes brasileiros têm menos tempo de cartaz quando comparados às produções internacionais. Como resultado, muitos relatam dificuldade para acompanhar os lançamentos e descobrir novas produções brasileiras.

Essa distância também contribui para a permanência de alguns estereótipos. Sem contato frequente com diferentes produções, parte dos consumidores ainda associa o cinema nacional principalmente às comédias populares, também conhecidas como “comédia pastelão”, deixando em segundo plano dramas, documentários, suspenses e outras narrativas que vêm conquistando reconhecimento do público e crítica nos últimos anos.

O estudo também indica que os streamings não são vistos como adversários do cinema nacional, mas como canais complementares que facilitam o acesso às produções brasileiras. Nesse contexto, iniciativas como o Tela Brasil, plataforma pública dedicada à exibição de obras audiovisuais nacionais, ampliam as possibilidades de descoberta e circulação desses conteúdos, contribuindo para aproximar o público de filmes que muitas vezes têm alcance limitado nas salas de cinema.

Ao mesmo tempo, a experiência de ir ao cinema continua sendo valorizada pelos consumidores. Os entrevistados associam a atividade a momentos de lazer, diversão, imersão e convivência, valorizando a experiência coletiva proporcionada pelas salas de exibição. Nesse contexto, as plataformas digitais são vistas como complementares ao cinema, ampliando o acesso às produções sem substituir a experiência de assistir a um filme na tela grande.

Entre os principais fatores que têm afastado o público das salas estão o custo dos ingressos, somado às despesas com transporte e alimentação, além da falta de tempo disponível para atividades de entretenimento. Os entrevistados recorrem às séries para aproveitar o pequeno tempo livre que têm, como o horário de almoço do trabalho.

“Quando olhamos para os resultados, percebemos que o desafio não é despertar interesse pelo cinema nacional. O interesse existe. A questão está em ampliar as oportunidades de encontro entre essas histórias e o público, seja nas salas de cinema, ou por meio das plataformas digitais. O reconhecimento internacional recente mostra que há espaço para essas produções conquistarem cada vez mais relevância, mas isso depende também da capacidade de gerar conversa, expectativa e descoberta”, finaliza Adriana.

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