
Em meio à corrida por prêmios que começa a ganhar forma em Hollywood, Devoradores de Estrelas surge não apenas como um dos títulos mais ambiciosos da temporada, mas como o catalisador de uma discussão antiga — e ainda não resolvida — sobre os limites da atuação no cinema.
No centro desse debate está James Ortiz, artista de teatro e especialista em manipulação de marionetes que dá vida a Rocky, a enigmática criatura alienígena que divide cena com Ryan Gosling. Sem recorrer a expressões faciais tradicionais ou linguagem corporal humana, Ortiz constrói uma presença cênica baseada em técnica, ritmo e intenção emocional — um trabalho que rapidamente se tornou um dos aspectos mais celebrados do filme.
Segundo informações divulgadas pela Variety, o estúdio pretende submeter Ortiz à consideração na categoria de ator coadjuvante no Oscar. Pelas regras atuais da Academia, sua performance é elegível — assim como no SAG Awards e no BAFTA, que historicamente já reconheceram trabalhos fora do padrão, como a indicação de Eddie Murphy por Shrek.
Por outro lado, premiações como o Globo de Ouro ainda não contemplam esse tipo de atuação em suas diretrizes, evidenciando uma lacuna que há décadas provoca discussões na indústria.
A questão é complexa: até que ponto uma performance que transita entre atuação, dublagem e técnica pode — ou deve — competir nas categorias tradicionais? A trajetória recente do cinema sugere que essa fronteira está cada vez mais difusa. Casos como o trabalho vocal de Scarlett Johansson em Her ou as performances físicas de Andy Serkis em O Senhor dos Anéis e Avatar já haviam tensionado esse limite. Agora, Ortiz leva essa discussão a um novo patamar.
Nos bastidores, a construção de Rocky foi meticulosa. Ortiz ensaiou cada movimento ao lado de Gosling antes mesmo da manipulação do boneco entrar em cena, estabelecendo uma dinâmica precisa entre os personagens. O resultado é uma criatura sem rosto — e ainda assim profundamente expressiva — que sustenta uma conexão emocional rara dentro de um blockbuster.
Essa singularidade também reacende o interesse por um mecanismo quase esquecido da Academia: o Prêmio Especial de Realização. Criado em 1972 para reconhecer contribuições que escapavam das categorias convencionais, o prêmio foi responsável por consagrar feitos como o trabalho de Ben Burtt na criação da voz de R2-D2 em Star Wars e o impacto revolucionário de Toy Story. Desde então, caiu em desuso — mas volta a ser citado como uma possível solução para casos como o de Ortiz.
Baseado no romance de Andy Weir, o mesmo autor de Perdido em Marte, Devoradores de Estrelas acompanha um astronauta que desperta sem memória em uma missão solitária rumo ao sistema Tau Ceti, em meio a uma crise que ameaça a Terra. Com direção da dupla Phil Lord e Christopher Miller, o longa combina espetáculo sci-fi com uma abordagem intimista sobre sobrevivência e conexão.
Produção da Amazon MGM Studios, o filme integra a estratégia da companhia de ampliar sua presença nos cinemas, com distribuição internacional liderada pela Sony Pictures. No Brasil, o título já está em cartaz.
Mais do que um potencial candidato em diversas categorias técnicas e principais, Devoradores de Estrelas pode acabar deixando sua marca mais duradoura fora das telas: ao forçar a indústria a reavaliar o que, afinal, define uma grande atuação.
Para entender a dimensão desse trabalho, veja como Rocky ganhou vida nos bastidores:



