(Imagem: Divulgação)

Meu primeiro filme como diretora, a primeira campanha de Geraldo como candidato – M’Boi Mirim, em Tupi-Guarani, significa rio das cobras pequenas. É neste cenário que acompanhamos Geraldo, liderança comunitária da região, em sua primeira campanha política. Atrás das lentes, o olhar atento e o compromisso de Telma Hoyler em desvelar, sem pressa, a política que se faz no dia-a-dia, sobretudo longe dos centros urbanos. Assim se desenha Território, documentário de longa-metragem e também estreia de Hoyler na produção cinematográfica.

Território centra-se em Geraldo, um candidato de esquerda à Câmara Municipal de São Paulo, na eleição municipal de 2024. Ativista de longa data no Partido dos Trabalhadores, o protagonista enfrenta o desafio de se adaptar às estratégias modernas de campanha, conquistar eleitores evangélicos e confrontar a ascensão da extrema-direita em sua comunidade na zona sul da cidade. Ambientado em um distrito moldado por organizações progressistas, o filme retrata o trabalho emocional, social e estratégico da militância política, sem deixar de captar a como os moradores da região experimentaram esse momento.

Distante da tradicional “jornada do herói”, esta é uma narrativa sobre uma política frequentemente invisível: as relações e os acontecimentos cotidianos que ocorrem nas margens da cidade e que ajudam a moldar a política de forma mais ampla – mesmo que não ganhem manchetes nos jornais. O filme retrata vividamente como uma campanha é construída na interação com os eleitores, como política local e nacional se entrelaçam, e como novas abordagens coexistem com práticas antigas.

A partir da trajetória de Geraldo, a obra investiga como a religião, o crime e os valores do empreendedorismo estão transformando a percepção das pessoas sobre política e democracia, oferecendo um olhar íntimo sobre como comunidades das periferias urbanas vivem a política, mostrando que a representação política vai além das eleições – ela se constrói nas relações cotidianas e na confiança.

Nas palavras da diretora, o filme nasce de um encontro: “Quando eu soube que Geraldo, com quem convivi ao longo da minha pesquisa de doutorado, se candidataria ao cargo de vereador, propus acompanhar sua campanha. No desenrolar da campanha e das gravações, entramos também em contato com outros moradores e ouvimos suas histórias. Foi então ficando claro que esse não seria apenas um filme sobre como se constrói uma campanha eleitoral. Seria também um filme sobre como as mudanças políticas se expressam nesse território”.

Território é um filme sobre escuta política. Sem oferecer respostas fáceis, o longa observa, por meio de uma lente etnográfica,  as nuances e contradições do cenário político brasileiro, onde narrativas distintas coexistem, se sobrepõem e nem sempre seguem a mesma direção. O resultado é um retrato sensível do Brasil urbano contemporâneo e de sua relação cotidiana com a democracia.

Ficha Técnica
Território
Direção:
Telma Hoyler
Produção Executiva: Caio Ferraz
Montagem: Luiz Romero
Direção de Fotografia: Luiz Romero
Câmeras: Luiz Romero, Ricardo Moura, Daniel Ferreira
Edição de Som e Mixagem: Julia Telles
Colorização: Bernardo Neder
Produção: Planetária Produções e Pesquisa
Pós-Produção: Cajamanga
Financiamento: Urban Studies Foundation

Sobre Telma Hoyler
Telma Hoyler é etnógrafa da política e documentarista baseada em São Paulo. Seu trabalho investiga como a política é vivida no cotidiano das cidades, seja nas instituições como nas relações e nas formas pelas quais as pessoas constroem vínculos com o poder público. É pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM/USP) e professora no IDP-SP – Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa. Integrou a Global Research Network on People and Parliaments (GRNPP–ERC) e realizou estágio de pesquisa na University College London (UCL). É doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com período de formação na Sciences Po, e graduada em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas. Seu primeiro longa-metragem documental nasce de sua pesquisa de doutorado: uma etnografia que acompanhou mobilizadores políticos e vereadores em diferentes territórios da cidade. Hoje, transita entre pesquisa e criação, interessada em construir formas de traduzir a política para além da linguagem acadêmica. Nas frestas do tempo, aprende com as plantas.

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