
O escritor Marcelo Rubens Paiva é um dos personagens de “Brasil”, episódio inédito da série Fronteiras da Memória, que estreia com exclusividade no Curta! e está disponível completa no CurtaOn – Clube de Documentários. Ele tinha 12 anos quando o pai, o ex-deputado cassado Rubens Paiva, foi preso, torturado e morto durante a Ditadura Militar. Ao percorrer o Memorial da Resistência, antigo prédio do DOPS em São Paulo, relembra a luta de sua mãe e afirma que contar a história de Eunice Paiva foi a forma que encontrou para denunciar a violência sofrida por tantas outras famílias no período.
“Eu percebia que ali estava uma mulher que atuou, viúva e com cinco crianças, de uma forma que precisava ser retratada. Tinham feito uma biografia sobre o meu pai, mas nem de longe o que minha mãe fez por esse país se assemelha ao que meu pai fez. Ela merecia uma biografia, então achei que era a hora de dar à essa mulher um livro digno. Foi aí que eu escrevi o ‘Ainda Estou Aqui’”, revela sobre o livro, adaptado para o cinema e vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, em 2025.
Com três episódios, sobre Argentina, Brasil e Chile, a série dirigida por Stela Grisotti apresenta histórias de pessoas que tiveram suas vidas impactadas pelas Ditaduras do século XX na América Latina, e como elas lidam com a memória e denunciam os anos de repressão, censura e violência. A produção original foi viabilizada pelo Curta! através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
No episódio brasileiro, a série percorre diferentes territórios para revelar como o país ainda convive com silêncios e marcas deixadas pelo período. Na Paraíba, a memória das Ligas Camponesas é contada a partir da trajetória de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado, e de Elisabeth Teixeira, protagonista de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, hoje com 101 anos, que manteve viva a luta pela terra mesmo sob longa perseguição. O Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, em Sapé é um espaço sustentado coletivamente pela comunidade de trabalhadores rurais e Juliana Teixeira, neta de Elisabeth, e Alane Lima, presidenta do Memorial, dão continuidade a esse legado.
“A perseguição à família de João Pedro Teixeira já representava uma perseguição do Estado ao campesinato. Então nossas lutas não têm como ficar só no passado. É importante ter um lugar de memória e continuar a luta com a mesma incidência que as ligas camponesas faziam”, defende Alane Lima.
A série apresenta outros espaços para denunciar, relembrar e homenagear vítimas, além do Memorial da Resistência, criado em 2009, em São Paulo. São eles, os futuros Memorial da Luta pela Justiça, na antiga Auditoria da Justiça Militar, também em São Paulo, e a Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, que funcionou como centro clandestino de tortura.
No Ceará, o cineasta Caio Ramos usa também a arte para lidar com os fantasmas e as dores da Ditadura. Filho de um militar, ele cresceu acreditando na versão oficial do regime, até investigar a própria história e descobrir o envolvimento do pai com a repressão — ruptura que o levou a transformar o confronto familiar em reflexão e criação artística. Hoje debate em suas obras o que chama de “dano transgeracional”.
“O filme que estou fazendo é sobre os agentes da repressão e de um herdeiro que não aguenta mais, é uma exposição da minha desconstrução. Parte de mim entende que a negação é uma estratégia de sobrevivência, e a arte não permite essa negação”, afirma.
Fronteiras da Memória é uma produção da MMTV, viabilizada pelo Curta! através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A serie está no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial (CurtaOn.com.br). A estreia no canal é no dia temático Sextas de História & Sociedade, 17 de abril, às 21h20.



