A histórica presença de O Agente Secreto na corrida pelo Oscar 2026 marca um novo capítulo para o cinema brasileiro — e também para as políticas públicas de financiamento à cultura. O longa dirigido por Kleber Mendonça Filho foi indicado simultaneamente a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco, além de garantir a indicação de Wagner Moura a Melhor Ator.

Com quatro indicações, o filme com mais de 50 premiações consolida um momento de projeção internacional do audiovisual nacional. O reconhecimento também passou pelo Globo de Ouro, onde o longa conquistou duas estatuetas, ampliando ainda mais sua visibilidade global.

Por trás desse percurso internacional, há um elemento estruturante: o financiamento público operado por instituições do Sistema Nacional de Fomento (SNF). De acordo com um levantamento feito pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), representante do Sistema Nacional de Fomento (SNF), O Agente Secreto contou com R$ 7,5 milhões em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) — mecanismo do governo federal administrado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) e pelo Ministério da Cultura — voltado ao fortalecimento de toda a cadeia produtiva do audiovisual, do desenvolvimento à distribuição e exibição.

“O sucesso internacional do cinema brasileiro está diretamente ligado à existência de instrumentos públicos de financiamento que estruturam o setor e dão previsibilidade aos recursos. O Sistema Nacional de Fomento viabiliza investimentos em diferentes etapas da cadeia produtiva, o que contribui para elevar a qualidade audiovisual e ampliar sua presença no cenário internacional”, avalia o diretor-executivo da ABDE, André Godoy.

O caso de O Agente Secreto não é isolado. Outros filmes brasileiros de grande repercussão recente, como Bacurau, O Último Azul, Enquanto o Céu Não Me Espera, Oeste Outra Vez, A Natureza das Coisas Invisíveis e Baby, também tiveram financiamento operado por instituições do Sistema Nacional de Fomento em alguma etapa de sua produção.

No total, o levantamento da ABDE mostra que entre 2009 e julho de 2025, o Fundo Setorial do Audiovisual desembolsou R$ 5,48 bilhões. Apenas em 2024, o volume desembolsado foi de R$ 711,1 milhões, o maior valor anual da série histórica. Em 2025, até 31 de julho, o valor de R$ 411 milhões já representa cerca de 58% do total de 2024, de acordo com o dado parcial.

No caso de O Agente Secreto, os recursos foram operacionalizados pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). O levantamento realizado pela ABDE mostra, ainda, que o BRDE e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são hoje os principais gestores dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, atuando por meio de financiamentos, chamadas públicas e editais de fomento. Até o primeiro semestre de 2025, o saldo depositado junto aos dois agentes somava R$ 3,4 bilhões.

Além dessas instituições, o FSA também conta com agentes credenciados como o Banco do Nordeste, a Caixa Econômica Federal (CEF), o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ampliando o alcance regional e institucional da política de fomento ao audiovisual. Dessa forma, o investimento público permite ao cinema brasileiro competir em técnica e artística nos principais festivais e premiações do mundo.

O que é a “Retomada 2” do Cinema Brasileiro?

A “Retomada 2” (ou Nova Retomada) do cinema brasileiro refere-se ao atual período de revitalização e fortalecimento da indústria audiovisual em 2026, após a crise de produção e distribuição agravada pela pandemia e pelo desmonte de políticas culturais em anos anteriores. Este movimento é consolidado por três pilares principais:
  • Cota de Tela Obrigatória: Em 2026, entrou plenamente em vigor o decreto que torna obrigatória a exibição de filmes brasileiros de longa-metragem em salas comerciais. A cota varia de 7,5% a 16% das sessões anuais, dependendo do tamanho do grupo exibidor, garantindo que as produções nacionais tenham espaço contra o domínio dos blockbusters estrangeiros.
  • Financiamento Estruturante: A estabilização de leis como a Lei Aldir Blanc 2 (agora permanente, com previsão de R$ 15 bilhões até 2029) e a Lei Paulo Gustavo permite um fluxo contínuo de recursos para produção, finalização e preservação de obras.
  • Sucesso de Público e Crítica: O período é marcado por uma forte conexão com o público, com filmes brasileiros como a dualogia Tropa de EliteNosso Lar 2, a trilogia Minha Mãe é uma Peça e, principalmente: O Auto da Compadecida 2, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, alcançando altas bilheterias, além da presença constante de títulos nacionais em festivais internacionais e premiações como o Globo de Ouro e o Oscar em 2025 e 2026. 
Diferente da primeira “Retomada” (1995-2002), que focou em reconstruir o setor após o fim da Embrafilme, a Retomada 2 foca na diversidade regional, na inclusão de novas identidades e na sustentabilidade econômica do setor audiovisual como motor do PIB de serviços no Brasil.
PwC comprova: cinema nacional está recuperado

O mercado brasileiro de cinema, segundo maior da América Latina em volume de ingressos, se recupera após um longo período de retração pós-pandemia. Em 2024, as salas registraram 125 milhões de entradas, e a receita total alcançou US$ 499 milhões (quase R$ 2,8 bilhões), com previsão de crescimento para US$ 668 milhões até 2029, a uma taxa anual composta (CAGR) de 6%. Os dados estão no estudo Global Entertainment, Media & Telecommunications Outlook 2025–2029, da PwC, que indica um faturamento global de US$ 41 milhões em 2029.

O destaque nacional foi Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que arrecadou US$ 12,3 milhões e venceu o Oscar 2025 de Filme Internacional, além do Globo de Ouro de Atriz Dramática para Fernanda Torres. O mercado também continua dominado por grandes produções, como O Agente Secreto em 2025 e 2026. Além disso, a retomada do público, impulsionada por sucessos como Mufasa: O Rei Leão, que gerou mais de US$ 13 milhões no Brasil, e Moana 2, com quase US$ 28 milhões em bilheteria no país, também refletem o otimismo do setor.

O Brasil também fortalece parcerias com países latino-americanos e europeus, com projetos selecionados para festivais como Berlim e Veneza. Além disso, cresce a produção de animações e filmes de gênero, com destaque para títulos premiados em eventos como Ventana Sur.

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