
Um em cada três brasileiros tem afinidade com filmes, séries ou livros de terror, segundo levantamento da plataforma Pluto TV com 8.779 pessoas no país, o que coloca o Brasil em 3º lugar no ranking mundial, atrás de México e Suécia. Em outubro, mês do Halloween, celebrado no dia 31, o gênero ganha ainda mais espaço. Para entender por que tanta gente procura o susto por vontade própria, o psicólogo Manoel Acioli, mestre, doutor e pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica o que acontece na mente e no corpo diante dessas produções. Segundo ele, saber que a história é inventada não impede que o medo seja sentido de verdade.
A ciência tem se debruçado sobre esse interesse. Uma pesquisa publicada em 2021 na revista científica Personality and Individual Differences, conduzida por Coltan Scrivner e colegas, observou que fãs do gênero demonstraram mais resiliência psicológica durante a pandemia de Covid-19. A hipótese dos autores é que essas histórias funcionem como um ensaio seguro para lidar com o medo.
De acordo com Acioli, a mente interpreta o terror combinando o que percebe com memórias e expectativas. A psicologia chama esse processo de avaliação de ameaça, e ele pode acontecer sem que a pessoa pense conscientemente “isso é perigoso”. “Imagine uma cena em que alguém caminha por um corredor escuro, enquanto a trilha sonora fica mais tensa. Ainda não apareceu nenhuma ameaça, mas a combinação desses elementos favorece a expectativa de que algo ruim está prestes a acontecer. O suspense se desenvolve nesse intervalo”, explica. O psicólogo cita um experimento publicado em 2026: participantes que ouviram uma trilha de terror antes de observar rostos passaram a avaliá-los como mais ameaçadores, mesmo quando eram rostos sorridentes.
Ficção que provoca medo real – “Saber que é ficção pode coexistir com sentir medo de verdade. Sons, imagens e o envolvimento com os personagens mobilizam respostas emocionais, enquanto o conhecimento de que estamos em um ambiente seguro ajuda a regular essa experiência”, afirma. No corpo, o medo pode acelerar os batimentos, mudar a respiração e provocar tensão muscular, suor e frio na barriga, ajustes que envolvem o sistema nervoso autônomo. Uma pesquisa de 2022 mediu a atividade elétrica da pele de 156 adultos em uma casa de terror e mostrou que os ataques inesperados geraram as respostas mais intensas. Acioli diferencia ainda o susto, que é uma reação rápida a algo súbito, da tensão da espera, que mantém a pessoa em alerta.
As reações variam de pessoa para pessoa. Um dos fatores estudados pelas Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCCs) é a intolerância à incerteza, ou seja, a dificuldade de lidar com situações em que não se sabe o que vai acontecer. Em um estudo de 2025 com 1.029 visitantes de uma atração de terror, quem tinha mais intolerância à incerteza relatou mais emoções negativas e ansiosas. Já o prazer tem a ver com o contexto. “Em um contexto recreativo, medo e diversão podem coexistir. A pessoa escolheu participar e pode vivenciar aquela ativação como parte de uma experiência interessante”, destaca. Ele lembra, porém, que aumentar a quantidade de sustos não garante uma experiência melhor.
Para Acioli, o medo é uma experiência psicobiológica, com processos do organismo moldados pela interpretação, pela aprendizagem e pelo contexto. “Quando dizemos que a mente participa da construção dessa experiência, estamos falando da maneira como o organismo integra informações e lhes atribui significado. Isso não torna o medo imaginário nem significa que a pessoa escolheu senti-lo”, comenta.
Essa capacidade de aprender é a base das TCCs no tratamento da ansiedade, que ajudam o paciente a testar previsões e a criar novas formas de responder ao medo. Um estudo conduzido por André Pittig e colegas na Alemanha, publicado em 2023 na revista científica Clinical Psychological Science, analisou 8.484 exercícios de exposição feitos por 605 pacientes com transtornos de ansiedade e mostrou que mudar as expectativas de ameaça estava associado a melhores resultados do tratamento. O psicólogo faz uma ressalva: “Os estudos clínicos sobre exposição sustentam a possibilidade de modificar respostas de medo, mas seus resultados não demonstram que assistir a terror, por si só, trate a ansiedade”.
Sobre Manoel Acioli
Manoel Acioli é psicólogo formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em Saúde Mental, mestre, doutor e pós-doutor em Psicologia pela mesma instituição, com parte de sua trajetória acadêmica desenvolvida em cooperação com a Aix-Marseille Université e a Université Lumière Lyon 2, na França. Com experiência também como professor universitário, atua atualmente com psicoterapia, pesquisa e desenvolvimento de projetos que aproximam psicologia, jogos e imaginação. Desde 2021, desenvolve a RPG Terapia por meio de um processo sistemático de estudo, registro clínico e construção teórica que deu origem à Terapia de Imersão Imaginativa (TII), uma abordagem que utiliza experiências narrativas e lúdicas para favorecer a exploração de emoções, conflitos e escolhas, bem como a experimentação de novas formas de responder às situações da vida cotidiana.



