
A atriz, diretora e pesquisadora, Larissa Maxine prepara o lançamento de The Stain, seu primeiro curta-metragem como diretora. Vivendo há seis anos na Austrália, a artista reuniu histórias escutadas ao longo desse período para construir uma narrativa que trata da maternidade em contexto migratório sem romantização, expondo camadas de silêncio, isolamento e vulnerabilidade raramente abordadas no audiovisual.
“Vi de perto mulheres imigrantes entrando em disputas familiares atravessadas por legislações diferentes e relações de poder profundamente desiguais”, afirma. “Existe uma camada dura e silenciosa na maternidade em contexto migratório — isolamento, medo, perda de direitos — que raramente aparece na narrativa dominante”, conta ela, que também atuou e assina o roteiro da produção.
O filme nasce não de um episódio isolado, mas de um acúmulo de experiências e observações. Em The Stain, o conflito não se apresenta de forma explícita. Ao contrário, se organiza a partir do não dito, daquilo que não encontra espaço para ser nomeado. O silêncio, aqui, não é ausência, mas linguagem. A narrativa se estrutura como um thriller psicológico ancorado em observação social concreta, no qual a tensão se constrói por gestos, atmosferas e rupturas sutis.
A trajetória de Larissa Maxine é marcada por deslocamentos — geográficos, culturais e simbólicos. Antes de estrear na direção, ela atuou em produções internacionais de grande porte filmadas na Austrália, integrando sets hollywoodianos comandados por diretores como Sam Raimi (Homem-Aranha, Evil Dead) e Shane Black (Máquina Mortífera, O Predador). Nesse percurso, contracenou com atores como Rachel McAdams, Mark Wahlberg e Russell Crowe.
A experiência nesses ambientes da indústria, segundo ela, foi determinante para seu amadurecimento artístico. “São sets onde cada detalhe é calculado, onde se aprende disciplina, precisão e trabalho coletivo. Ao mesmo tempo, isso reforçou em mim o desejo de contar histórias mais íntimas, onde o risco artístico ainda é possível.”
A vida profissional no exterior também evidenciou os desafios enfrentados por artistas imigrantes. Para além do talento e da formação, existem barreiras objetivas como visto, sotaque e acesso às redes de contato. “É uma vida de resistência”, resume Larissa. Em períodos mais intensos, chegou a realizar entre 10 e 20 testes de elenco por semana, um ritmo que exige resiliência, foco e dedicação absoluta ao ofício.
Paralelamente à atuação, Larissa aprofundou sua formação acadêmica ao concluir um mestrado voltado ao estudo de sobreviventes de violência doméstica e colaborou com a Chayn, organização internacional que oferece cursos e apoio online para mulheres vítimas de trauma.
Essa dimensão atravessa todo o seu trabalho artístico. “Sempre me interessou entender como o trauma se manifesta no corpo, na linguagem e nas relações. Meu trabalho artístico e acadêmico caminham juntos. Ambos tentam criar espaço para quem foi empurrado para fora da narrativa oficial.”
O processo de realização de The Stain refletiu essa intensidade. Entre escrita e filmagens, o curta foi desenvolvido ao longo de três semanas. A pós-produção, no entanto, se estendeu por quase seis meses, com atenção especial à edição e ao colour grading, etapa decisiva para a construção da atmosfera do filme. A colaboração com o colorista Lincoln Barela (Buzz CCS) foi fundamental para o acabamento visual, descrito pela diretora como emocionalmente potente e profundamente sensorial. Com o filme finalizado, The Stain inicia agora sua trajetória em festivais internacionais.
Atualmente em trânsito entre Sydney e Rio de Janeiro, Larissa não fala em retorno definitivo, mas em circulação. A ideia é dividir o tempo entre a Austrália e o Brasil, mantendo vínculos profissionais internacionais enquanto se reaproxima da cena artística brasileira. Para ela, os dois contextos oferecem aprendizados complementares. “A Austrália me ensinou rigor, método e processo. O Brasil tem uma porosidade criativa única. Aqui se cria apesar de tudo.”
Para Larissa, filmar é um gesto de escuta e também de posicionamento político. The Stain sintetiza essa postura: arte como manifesto silencioso, espaço de acolhimento e possibilidade real de transformação. “A arte pode mudar vidas”, afirma. No cinema que ela propõe, mudar vidas começa por ouvir aquilo que, por tanto tempo, foi calado.



