
Análises e Dicas #1019 – A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren)
– Sinopse: Em uma releitura sombria do conto da Cinderella, a história acompanha Elvira, a meia-irmã considerada feia, pressionada pela mãe a se moldar aos padrões de beleza exigidos para conquistar um casamento real. Disponível na Mubi.
– Análise rápida: Ao deslocar o foco da figura idealizada de Agnes (a Cinderella) para Elvira, o filme reorganiza a lógica moral do conto clássico. A personagem central não é vilã nem heroína, mas produto direto de uma engrenagem social que associa afeto, status e sobrevivência à adequação estética. A narrativa constrói seu argumento a partir do corpo, tratado como território político e econômico. A busca pela beleza não aparece como escolha individual, mas como imposição transmitida de mãe para filha, numa cadeia de expectativas internalizadas. O horror corporal opera menos como choque e mais como linguagem. Procedimentos extremos tornam visível aquilo que, em contextos contemporâneos, costuma ser suavizado por discursos de autocuidado e sucesso pessoal. Nesse sentido, o diálogo com A Substância (indicado a diversas estatuetas do Oscar em 2025 e também disponível na Mubi) surge não pelo excesso gráfico, mas pela ideia de transformação como apagamento. A encenação de época, marcada por luxo ornamental, cria fricção constante com o grotesco, reforçando a artificialidade do ideal perseguido. Já o príncipe Julian surge esvaziado de função simbólica, menos “sujeito do desejo” e mais “prêmio abstrato”; mais humano em atitudes e menos idealizado e ideal. O filme conclui que não há redenção no encaixe. A metamorfose prometida não conduz à liberdade, mas à perda progressiva de identidade, deixando como saldo um mal-estar persistente. Em um reino onde aparência define valor, o corpo torna-se campo de sacrifício. A transformação prometida cobra um preço físico e simbólico irreversível.
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