Tânia Maria é Dona Sebastiana no filme ‘O Agente Secreto’ (Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

A vitória de Tânia Maria como Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago, no Chile, não é apenas mais um troféu internacional para O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. É a consagração de uma trajetória improvável, construída longe das escolas de teatro, dos grandes centros culturais e dos caminhos tradicionais do cinema brasileiro.

Aos 78 anos, a artesã potiguar, natural do povoado de Cobra, em Parelhas (RN), foi premiada por sua atuação como Dona Sebastiana, personagem central na engrenagem emocional do longa ambientado no Recife da ditadura militar. Na narrativa, Sebastiana administra um refúgio clandestino para perseguidos políticos — papel que Tânia interpreta com uma força silenciosa, marcada por presença, escuta e humanidade, qualidades amplamente destacadas pela crítica internacional.

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O reconhecimento no Chile amplia o momento histórico vivido pelo filme. Além do prêmio de Tânia Maria, O Agente Secreto também foi eleito Melhor Roteiro, para Kleber Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, reforçando sua trajetória de sucesso no circuito latino-americano. As conquistas se somam aos dois prêmios obtidos no Globo de Ouro 2026: Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, consolidando o longa como um dos títulos brasileiros mais fortes na corrida internacional deste ano.

Sem formação acadêmica em artes cênicas, Tânia Maria chegou ao cinema tardiamente. Sua estreia aconteceu aos 72 anos, como figurante em Bacurau (2019), também dirigido por Mendonça Filho. Foi ali que seu carisma natural chamou a atenção do diretor, que mais tarde escreveu Dona Sebastiana já pensando nela. Desde então, sua atuação espontânea — construída a partir da observação do cotidiano e do improviso — passou a ocupar um espaço singular no cinema brasileiro contemporâneo.

Durante as filmagens de O Agente Secreto, Tânia visitou Recife diversas vezes, no set, desenvolveu uma relação próxima com Wagner Moura, a quem presenteou com peças artesanais feitas por ela mesma. “Eu ainda sou artesã”, costuma lembrar, mantendo viva a identidade que antecede e atravessa sua atuação no cinema.

O impacto de sua performance extrapolou o circuito crítico. Além dos elogios de veículos internacionais como The Guardian, que classificou sua atuação como “maravilhosa”, o nome de Tânia Maria passou a figurar em previsões de publicações como Variety e The Hollywood Reporter para uma possível indicação ao Oscar 2026. A campanha ganhou força nas redes sociais, impulsionada pelo próprio Kleber Mendonça Filho e pelo entusiasmo do público.

Símbolo desse carinho popular, camisetas com a imagem de Dona Sebastiana viralizaram e se esgotaram rapidamente, e um concurso de sósias da personagem foi realizado no Estação Net Rio, pouco antes da cerimônia do Globo de Ouro. Para Wagner Moura, o fascínio é direto: “Maravilhosa. Ela é uma loucura. Eu sou louco por ela”, declarou o ator.

Mesmo diante da projeção internacional, Tânia Maria segue com os pés fincados em suas origens. Costureira e artesã desde a adolescência, nunca abandonou o trabalho manual que sustentou sua família por décadas. Hoje, entre novos projetos audiovisuais e convites que se multiplicam, ela representa uma rara síntese entre cinema, vida real e memória coletiva — lembrando que grandes atuações nem sempre nascem da técnica, mas da experiência vivida.

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